Marcos Silva Palacios concluiu o doutoramento em Sociologia na Universidade de Liverpool em 1979. Actualmente, é professor Titular de Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e professor Catedrático visitante na Universidade da Beira Interior, em Portugal. É jornalista profissional e actua na área de pesquisa e ensino de Comunicação, com ênfase na área do Webjornalismo, Jornalismo Comparado e Novas Tecnologias da Comunicação.
No passado dia 29 de Abril de 2010 deu uma conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pólo de Ciências da Comunicação, acerca da relação entre jornalismo e memória.
Jornalismo e Memória: estabelecendo contextos e alimentando a História
Marcos Palacios começa por afirmar que a relação entre memória e jornalismo é uma relação paradoxal: por um lado jornalismo é actualidade - "O Jornal de ontem só serve para embrulhar peixe"; e por outro, o jornalismo constitui, em si só, um processo de registo sistemático de memória.
Hoje em dia, o que importa é a velocidade da informação, não a sua duração. "Vivemos em tempos líquidos" Bownam, e num tempo em que o jornalismo é mais centralizado do que alguma vez foi, onde fica a memória?
Palacios aborda três etapas deste processo: as antecedências, as incidências e as consequências.
A nível das antecedências o professor começa por dizer que a nossa memória é artificial desde o momento em que um ancestral nosso riscou a pedra e perenizou os primeiros sinais indicativos do que ali estava em acção. "A história é a reconstrução incompleta do que não mais existe".
O duplo papel do jornalismo, ora como espaço vivo de produção de actualidade - lugar de agendamento imediato, ora como produtor de registos sistemáticos do quotidiano, tem a sua raiz histórica no meio urbano.
O jornal passou a ocupar o lugar onde outrora estiveram o galo, o sina das igrejas e a posição do sol na abóbada celeste da marcação do tempo. No séc XIX descobre as cidades como fonte de notícias e "toma a cidade como seu assunto".
Por contar tantas estórias, o jornalismo é memória em acto, memórias enraizada quer no concreto, quer na imagem - é o presente transformado em notícia que amanhã será passado relatado, "o primeiro rascunho da história".
Para um historiador, o jornalismo assume o papel de arquivo como tantos outros livros de onde tira elementos e os transforma em relato histórico, verdade - "memória passa a ser verdade histórica".
O professor foca ainda o aspecto da memória jornalística como produto. No acto de produção de notícias, a memória é varias vezes accionada, e ela representa um factor importante na medida em que: serve de ponto de comparação do evento presente com eventos passados; fornece a possibilidade de estabelecer analogias; é um convite à nostalgia; e permite a desconstrução e reconstrução de novos factos à luz de acontecimentos do passado. - "A memória é uma recorrência na construção do relato do presente".
Relativamente às incidências, Marcos Palacios começa por dizer que o fluxo contínuo de informação da actualidade é a "ração diária da realidade".
Foca o papel das redes telemáticas que completam o estabelecimento da continuidade dessa mesmo fluxo e alerta para a constante alteração das formas de perceber e ler o mundo, deixando no ar as questões: "Fim do Jornalismo? Fim das intermediações?"
O pólos de emissão tornaram-se ciberalizados havendo uma junção de múltiplas vozes. "A informação deixou de ser um produto escasso, a ser super abundante. Torna-se escassa a atenção".
A comunicação rizomática e a libertação do pólo emissor multiplicaram os lugares de memória em rede, tornando cada usuário um potencial produtor de memórias, de testemunho. O professor acredita que pelo menos parte desses registos sobreviverão, assim como sobreviveram as marcas gravadas nas pedras ou nas pinturas rupestres.
Esta "nova forma de vida" traz consequências não só ao nível da produção e do consumo, como também ao nível da interacção. A audiência tornou-se pró-activa - monitorizando a produção jornalística. O jornalismo está agora presente em bases de dados - cada vez mais é possível usar elemento independentes da redacção como informação de contextualização e cada vez mais interessa a memoria.
Temos vindo a socializar a informação, fazendo da sua memória uma memória colectiva, armazenada não por produtores, mas pelos utilizadores.
Num espaço a comentários, Marcos Palacios explicou o porque desta realidade.
"A velocidade dos nossos tempos é de tal ordem de grandeza que nos sentimos compelidos a guardar as imagens do presente para uma visita posterior, num futuro mais calmo, que teimamos em sonhar que virá a existir"
No passado dia 29 de Abril de 2010 deu uma conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pólo de Ciências da Comunicação, acerca da relação entre jornalismo e memória.
Jornalismo e Memória: estabelecendo contextos e alimentando a História
Marcos Palacios começa por afirmar que a relação entre memória e jornalismo é uma relação paradoxal: por um lado jornalismo é actualidade - "O Jornal de ontem só serve para embrulhar peixe"; e por outro, o jornalismo constitui, em si só, um processo de registo sistemático de memória.
Hoje em dia, o que importa é a velocidade da informação, não a sua duração. "Vivemos em tempos líquidos" Bownam, e num tempo em que o jornalismo é mais centralizado do que alguma vez foi, onde fica a memória?
Palacios aborda três etapas deste processo: as antecedências, as incidências e as consequências.
A nível das antecedências o professor começa por dizer que a nossa memória é artificial desde o momento em que um ancestral nosso riscou a pedra e perenizou os primeiros sinais indicativos do que ali estava em acção. "A história é a reconstrução incompleta do que não mais existe".
O duplo papel do jornalismo, ora como espaço vivo de produção de actualidade - lugar de agendamento imediato, ora como produtor de registos sistemáticos do quotidiano, tem a sua raiz histórica no meio urbano.
O jornal passou a ocupar o lugar onde outrora estiveram o galo, o sina das igrejas e a posição do sol na abóbada celeste da marcação do tempo. No séc XIX descobre as cidades como fonte de notícias e "toma a cidade como seu assunto".
Por contar tantas estórias, o jornalismo é memória em acto, memórias enraizada quer no concreto, quer na imagem - é o presente transformado em notícia que amanhã será passado relatado, "o primeiro rascunho da história".
Para um historiador, o jornalismo assume o papel de arquivo como tantos outros livros de onde tira elementos e os transforma em relato histórico, verdade - "memória passa a ser verdade histórica".
O professor foca ainda o aspecto da memória jornalística como produto. No acto de produção de notícias, a memória é varias vezes accionada, e ela representa um factor importante na medida em que: serve de ponto de comparação do evento presente com eventos passados; fornece a possibilidade de estabelecer analogias; é um convite à nostalgia; e permite a desconstrução e reconstrução de novos factos à luz de acontecimentos do passado. - "A memória é uma recorrência na construção do relato do presente".
Relativamente às incidências, Marcos Palacios começa por dizer que o fluxo contínuo de informação da actualidade é a "ração diária da realidade".
Foca o papel das redes telemáticas que completam o estabelecimento da continuidade dessa mesmo fluxo e alerta para a constante alteração das formas de perceber e ler o mundo, deixando no ar as questões: "Fim do Jornalismo? Fim das intermediações?"
O pólos de emissão tornaram-se ciberalizados havendo uma junção de múltiplas vozes. "A informação deixou de ser um produto escasso, a ser super abundante. Torna-se escassa a atenção".
A comunicação rizomática e a libertação do pólo emissor multiplicaram os lugares de memória em rede, tornando cada usuário um potencial produtor de memórias, de testemunho. O professor acredita que pelo menos parte desses registos sobreviverão, assim como sobreviveram as marcas gravadas nas pedras ou nas pinturas rupestres.
Esta "nova forma de vida" traz consequências não só ao nível da produção e do consumo, como também ao nível da interacção. A audiência tornou-se pró-activa - monitorizando a produção jornalística. O jornalismo está agora presente em bases de dados - cada vez mais é possível usar elemento independentes da redacção como informação de contextualização e cada vez mais interessa a memoria.
Temos vindo a socializar a informação, fazendo da sua memória uma memória colectiva, armazenada não por produtores, mas pelos utilizadores.
Num espaço a comentários, Marcos Palacios explicou o porque desta realidade.
"A velocidade dos nossos tempos é de tal ordem de grandeza que nos sentimos compelidos a guardar as imagens do presente para uma visita posterior, num futuro mais calmo, que teimamos em sonhar que virá a existir"